Ninguém lê reportagem sobre índio
Por Ângela Kempfer (*)
Há muito tempo penso no que faz alguém odiar um povo inteiro e sair por aí
reproduzindo discursos preconceituosos em um estado com uma das maiores
populações indígenas do País. Se todo mundo na Europa gosta, porque aqui não?
Digo isso porque no jornalismo aprendemos na lida diária que falar de índio
não vende jornal. Nem tragédias envolvendo essas comunidades são reportagens
bem lidas por aqui.
E isso não é um chute, é constatação durante 3 anos administrando uma
redação e olhando com atenção esse tipo de estatística, gerada minuto a minuto
no jornalismo on-line.
Basta usar um título com a palavra índio ou indígena para seu material na
internet ser um dos menos lidos no ranking de notícias do Google. "Índio
de 2 anos morre atropelado na BR-163", manchete com um décimo das leituras
de “Criança morre atropelada na BR-163”.
Foram os leitores que deram a prova cabal: “índio não é gente”
A sorte no meu caso é que também aprendi a não acreditar cegamente no que
dizem as estatísticas e sempre trabalhei em veículos que respeitam o que é
noticia, não apenas o que é mais lido.
Como adolescente em Dourados, também passei bons anos ouvindo os “bugres” na
porta de casa pedindo “pão velho”. Não, não é só poesia de Emanuel Marinho, é
verdade. Eles pedem realmente pão velho.
Mesmo com a pouca idade, aquela frase para mim parecia algo sem lógica. Mas
depois entendi que os homens e mulheres que apareciam no portão não se
arriscavam a pedir coisa melhor porque nunca conseguiram de graça nada além de
pão velho, então, se habituaram a tentar o que ninguém mais queria.
Mas foi roubando manga em dia de visita de escola à reserva indígena que
levei o troco. Sem graça, catando ligeiro o que uma colega jogava lá de cima da
mangueira, de repente vi uma menina guarani ao lado oferecendo uma sacola
maior.
Sai de lá com “manga coquinho” suficiente para a turma inteira e me sentindo
uma idiota por achar que alguém ali iria negar uma manga, talvez porque na
minha casa todo mundo chamaria de ladrão uma pessoa que entrasse e pegasse algo
sem pedir.
Cada um tem os seus motivos para defender uma bandeira, eu sempre descobri
os meus dentro de uma aldeia. Uma dessas vezes foi em uma oca de mais de 10 metros de altura, em
outra comunidade de Dourados.
Sob aquela arquitetura perfeita, uma família guarani sem dentes exibia o
feito do dia com um largo sorriso: encontrar 8 frangos podres a beira de uma
estrada.
O primeiro e principal motivo, nesse meu caso, foi a admiração pela
capacidade desse povo ainda conseguir ensinar, apesar de ter tão pouco daquilo
que as pessoas costumam prezar: o desnecessário.
Também já vi pai desesperado tentando diminuir a dor de dente de um filho
aos berros em aldeia de Tacuru, retirando o que podia da cárie com palito de dentes.
Assim como vi uma senhora tirando farpas dos pés marido como se fosse um ato de
amor, assim como conheço a arquitetura desses povos e sei das contribuições que
nunca foram tão atuais, como a sustentabilidade.
Já conheci índio bandido, índio cantor, índio risonho, índio vereador, índio
professor, índio assassino, índio assassinado, índio pobre...até porque índio é
gente e gente é assim, de tudo um pouco.
Nunca vi índio rico assim como a gente sonha em ser. Não aqui em Mato Grosso do Sul.
Na verdade, nunca nem sequer conheci um índio nas aldeias que quisesse ser
rico. Tive a sorte de conviver com pessoas que têm a felicidade em um pedaço de
terra, como uma senhora terena na Aldeia Limão Verde, em Aquidauana, que cega
contava não ter mais nenhuma importância o enxergar, porque já tinha visto de
tudo mesmo e agora só queria era aproveitar a paz do olhar para “pensar
melhor”.
Nunca entendi como alguém sem ter pisado em uma aldeia ou participado de uma
Aty Guassu (grande assembleia guarani) pode saber tudo sobre “índios
fedorentos”, “oportunistas”, “manipulados” e “vagabundos”.
Nós últimos anos também foi difícil compreender tantos outros episódios.
Nunca entendi como a morte de 2 crianças indígenas gêmeas em Campo Grande, no
mesmo dia, na mesma hora, em um terminal de ônibus, em 2010, também não foi
fato suficiente para gerar uma investigação.
Por anos guardei na gaveta um fax com as portarias da Funai que criaram em
2008 grupos de estudo para demarcação de terras na região sul do Estado, até as
palavras sumirem do papel. Fico pensando na indignação de quem vê isso há
gerações. Se a maioria não quer ler nada sobre os índios, imagine quem quer
ouvir.
Tudo isso parece tão piegas quando eu mesmo releio os parágrafos
anteriores... mas é só uma verdade, a que eu conheço e que senti vontade de
dividir, como a menina guarani, dona do pé de manga.
(*) Ângela Kempfer é jornalista e editora do Lado B